sábado, 11 de novembro de 2017

Cientistas apóiam a desocupação da APE de Paracatu

Belo Horizonte, 10 de novembro de 2017


Engenheiros, biólogos e médicos da UFMG-Universidade Federal de Minas Gerais, da UFU-Universidade Federal de Uberlândia e da USP-Universidade de São Paulo enviaram requerimentos ao Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) esta semana, alertando para a necessidade de desocupar a APE-Área de Proteção Especial de Paracatu.

A APE de Paracatu abrange 25 mil hectares de cerrados destinados à conservação da natureza e produção de água para os mais de 80 mil habitantes da cidade.

Os cientistas querem reforçar a proteção ambiental na APE, mediante criação de novas unidades de conservação. As atuais unidades de conservação, sendo duas particulares (RPPN-Reservas Particulares de Patrimônio Natural) e uma estadual (Parque Estadual de Paracatu) cobrem apenas 40% da APE.

Os cientistas também apóiam a decisão da Justiça Agrária de Minas Gerais de retirar os invasores “sem terra” da Fazenda Paiol, localizada no centro geográfico da APE de Paracatu.

"As medidas propostas atendem os interesses difusos da proteção dos mananciais de abastecimento de água da cidade de Paracatu", afirma Apolo Heringer Lisboa, médico, especialista em medicina preventiva e social, idealizador do “Projeto Manuelzão” e um dos requerentes. “Paracatu sofre do fenômeno da seca subterrânea causada pela ocupação predatória da APE de Paracatu e seu entorno, agravada pela perfuração indiscriminada de poços e a mineração de ouro a céu aberto“, justifica.

Também assinam os requerimentos ao MPMG: Sergio Dani, médico, geneticista e toxicologista com diversos trabalhos realizados na APE de Paracatu; Paulo Maurício Serrano Neves, especialista em direito constitucional; Alexandre Salino, especialista em botânica e curador do Herbário da UFMG, com trabalho realizado na APE de Paracatu; Fabrício Santos, especialista em genética das populações humanas indígenas e conservação dos recursos genéticos animais e vegetais; Mauro da Costa Val, engenheiro civil e sanitarista, mestre em saneamento, meio ambiente e recursos hídricos, membro do Conselho do Parque Estadual de Paracatu; Heraldo Vasconcellos, especialista em artrópodes com trabalho realizado na APE de Paracatu e Hani Yehia, engenheiro especialista em reconhecimento de padrões.

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Kinross finalmente proibida de fazer pagamentos facilitadores para servidores públicos


Essa mudança de lei reforça o compromisso do Canadá no combate à corrupção”, afirmou Daniel Whalen, um advogado da divisão jurídica para assuntos criminais, de segurança e diplomacia global do governo canadense, a Global Affairs Canada.

http://tradecommissioner.gc.ca/canadexport/0002067.aspx?lang=eng

A vida depende de água, e água depende de justiça

Marcos Spagnuolo Souza

(Resumo de um discurso proferido na Câmara Municipal de Paracatu, em outubro de 2017)

Em 2006, o Plano Diretor de Recursos Hídricos da Bacia do rio Paracatu já apontava que as veredas, lagoas marginais e cursos d’ água e áreas de preservação permanente estavam sofrendo o impacto da utilização exaustiva de suas águas para irrigação, em toda a bacia hidrográfica. 

Em 2009, no Seminário Municipal de Desenvolvimento Sustentável de Paracatu, identificaram como sendo o principal problema do município, a redução da quantidade e da qualidade da água dos mananciais existentes no município, e que dos 823 mil hectares de terra que fazem parte de Paracatu, apenas um terço ainda conserva a vegetação nativa do cerrado. 

Em 2010, o Zoneamento Ecológico e Econômico de Minas Gerais indicou que as atividades agropecuárias e mineradoras causam impactos no território municipal. A situação agravou-se e as propostas para a solução desses problemas não foram implantadas e sequer houve acompanhamento das metas propostas. 

Em 2011, a Prefeitura de Paracatu encomendou o “Plano Bi-decenal de Desenvolvimento Sustentável do Município de Paracatu” à Fundação João Pinheiro. Esse plano ressaltava que (i) as bacias hidrográficas do município já estão comprometidas pelo uso excessivo da água em atividades agropecuárias; (ii) em alguns casos, o volume de água disponível é inferior ao volume efetivamente consumido; (iii) o conflito entre os usos da água tende a agravar, pois o volume de água disponível para uso humano, animal e ecológicos é cada vez mais reduzido em função das práticas agrícolas  e minerárias; (iv) a situação do município de Paracatu é muito grave, pois toda a água superficial disponível está comprometida; (v) a captação de água no Ribeirão Santa Isabel, iniciada no final da década de 1990, previa um alcance operacional até 2012, e a segunda etapa do projeto, que previa a captação no rio Escuro, nunca ocorreu, mesmo porque a vazão do próprio rio Escuro também está se esgotando. 

Já não é possível distinguir o mal-planejamento e a cegueira dos gestores públicos e privados da ignorância, negligência, corrupção e ganância. Agora falam em captar as águas do rio São Marcos, talvez pensando em manter a mineração até que esse recurso hídrico superficial também seque. 

A sêca superficial evidente já denota a sêca subterrânea, agravada pela perfuração descontrolada de poços semi-artesianos e artesianos, tanto os autorizados quanto os clandestinos. Se esses não forem catalogados e inativados, a sêca subterrânea só irá se agravar, inviabilizando as atividades econômicas e a vida na região. 

O ouro, os grãos e as carnes  exportadas não contabilizam nos seus custos as florestas queimadas, os solos degradados e erodidos, a biodiversidade dilapidada, as águas consumidas e tampouco a poluição da atmosfera. Ainda encontramos mercado de consumo porque não contabilizamos no custo os gastos com a destruição da natureza, e estamos matando a nossa natureza para enriquecer uma minoria. 

A legislação federal que regula a utilização das águas subterrâneas, dos rios e nascentes deve ser implementada com legislação municipal regulando as áreas de preservação permanente no município e estruturando a fiscalização rigorosa que puna de modo exemplar os infratores e degradadores dos recursos hídricos, e uma política estruturada de fomento que recompense os produtores de água e os proprietários de Unidades de Conservação da natureza que geram balanço hídrico positivo. 

A proteção ambiental não interessa somente às questões econômicas, ela diz respeito à sobrevivência e bem-estar da população e dos demais seres vivos com os quais compartilhamos o planeta. A própria existência humana depende da aplicação da ciência e da justiça na produção e uso da água.

domingo, 15 de outubro de 2017

Por que falta água em Paracatu (ou: por que Paracatu ainda tem água)?

Sergio U. Dani, de Trübbach, Suíça, 15.10.2017



Foto │ Ribeirão Santa Isabel, completamente seco, logo abaixo do ponto de captação de água para abastecimento público de Paracatu. Foto postada no Facebook pelo vereador Edivar Andrade, em 21 de setembro de 2017.

Para entender porque falta água em Paracatu ou porque Paracatu ainda tem água é preciso entender algo muito simples: a água é armazenada nos solos e subsolos, assim como o dinheiro é guardado nos bancos e nos colchões, e quanto mais se deposita, mais se tem e se pode retirar, e quanto menos se deposita, menos se tem e menos se pode retirar. Os solos e subsolos são uma espécie de “conta bancária” de água.

O depósito da água no solo é feito pelas chuvas. A manutenção da água no solo e no subsolos é feita pela vegetação, pelos microorganismos e pelas rochas. A retirada da água dos solos e subsolos é feita, principalmente, pela força da capilaridade da água, que conduz boa parte da água dos solos de volta à atmosfera, e a força da gravidade, que conduz parte da água dos subsolos para os rios. Os rios são meros condutores do excesso de água que não pôde ser retido pelos solos e subsolos.

Fatores climáticos regionais e globais definem o clima em que vivemos, e consequentemente a quantidade de água de chuva que é depositada nos solos e subsolos. Nós exercemos pouca influência sobre esses fatores, assim como exercemos pouca influência sobre os fatores macroeconômicos. 

Entretanto, ao interferir nos mecanismos de depósito de água nos solos e subsolos, ou nos mecanismos de retirada da água depositada da “conta bancária” dos solos e subsolos, nós exercemos uma influência direta sobre a quantidade de água que é armazenada nos solos e subsolos. Consequentemnte, é nossa culpa se depositamos pouco e retiramos muito, zeramos o saldo ou criamos um saldo negativo.

O que acontece em Paracatu é exatamente isso. Tem chovido menos, esse é um fenômeno regional sobre o qual temos pouca influência, mas do qual temos consciência através dos resultados das medições de precipitação que são de amplo conhecimento. Em vez de nos adaptarmos a esta realidade, aumentando a capacidade de armazenamento de água nos solos e subsolos para fazer frente à demanda de água potável da população, estamos tolerando que façam exatamente o oposto: diminuam a capacidade de armazenamento (através dos desmates, substituição da vegetação nativa por pastos e lavouras, ressecamento e erosão dos solos), retirem água a mais da que é depositada (através de poços semiartesianos e artesianos, bombeamento de água para irrigação de lavouras e mineração de ouro em larga escala), e até destruam o próprio “banco de água” de Paracatu, os solos e subsolos onde a água é armazenada (destruição, entupimento e poluição das nascentes da face leste do Sistema Serra da Anta, pela mineração de ouro em larga escala).

Se falta água em casa para os mais de 80 mil habitantes de Paracatu, não foi por falta de aviso. Foi por falta de vergonha na cara, ganância, negligência e corrupção.